40 anos depois, o Chile canta Victor Jara

Milhares de mortos. 11 de setembro. Um dia obscuro na história da humanidade.

Não me refiro aos atentados terroristas de 2001 nos EUA,  e sim ao sangrento golpe militar no Chile, que hoje completa 40 anos.

E sobre esse trágico momento, não apenas da história chilena, mas de toda a América Latina, reproduzo aqui, na íntegra, o excelente texto da jornalista Dorrit Harazim sobre um dos episódios mais horrendos desta ditadura: o assassinato do cantor Victor Jara.

Que (tristes) episódios como este JAMAIS voltem a se repetir na nossa querida e sofrida América Latina.

***

Passaram-se quarenta anos. Duas novas gerações de chilenos sequer eram nascidas quando o dia se fez noite na manhã do 11 de setembro de 1973 e a ditadura se instalou no país por 17 anos. Mas, na próxima quarta-feira, 40º aniversário do golpe militar que desapareceu com 2.300 opositores e torturou perto de 40 mil, o Chile vai relembrar.

A cada efeméride tem sido assim. E nas datas redondas como a deste ano o passado se aviva mais.

Em Deltona, cidade situada ao sul de Daytona Beach, no estado da Flórida, um vendedor de automóveis americano de 64 anos preferiria permanecer à margem dessas lembranças. Ele se chama Pedro Pablo Barrientos, tinha 24 anos e era tenente do Exército chileno em 1973. Mudou-se em 1989 para os Estados Unidos, onde tratou de adquirir nova cidadania. Esta semana, a família do músico Victor Jara entrou com um processo contra ele numa corte distrital de Jacksonville. Acusa-o de ter torturado Jara pessoalmente e sido o autor do primeiro dos 44 tiros que vararam o corpo do cantor popular depois de preso.

A ação foi encaminhada em nome da viúva e de suas duas filhas pelo Centro de Justiça e Responsabilidade, de São Francisco, baseada na Lei de Proteção a Vítimas de Torturas. Sancionada em 1991, essa legislação federal permite que cidadãos residentes nos Estados Unidos sejam processados em território americano quando suspeitos de violações de direitos humanos em outros países.

Pela primeira vez este que é um dos episódios mais encruados do 11 de setembro chileno parece ter uma real chance de ser esclarecido.

Na semana inicial do golpe todos os boatos eram críveis, por inverificáveis. A nova ordem militar de Augusto Pinochet havia cortado boa parte das linhas telefônicas na capital, e o toque de recolher era draconiano, impedindo que uns soubessem com certeza da sorte dos outros.

No caso de Victor Jara, soube-se apenas que fora preso junto com uma centena de estudantes e professores da Universidade Técnica Estadual e que, cinco dias depois, a bailarina inglesa Joan Turner Jara fizera o reconhecimento do corpo do marido no necrotério municipal. Sepultou-o sozinha, no Cemitério Geral de Santiago, com a ajuda do motorista do rabecão.

O venerado Jara era a voz do Chile socialista de Salvador Allende. Cancioneiro e poeta, compositor popular, professor e ativista político, além de dramaturgo e apaixonado pelas raízes folclóricas da Nueva Canción Chilena, era um letrista engajado e autor de músicas que arrebatavam a classe operária (“Te Recuerda Amanda”).

E esta voz tinha sido eliminada. As primeiras falsas certezas asseguravam que ele fora levado para o Estádio Nacional onde lhe teriam decepado as mãos de músico antes de executá-lo, como ocorrera com Che Guevara após sua captura na Bolívia — só que Guevara já estava morto ao ser mutilado.

Na verdade, Victor Jara sequer conseguiu chegar ao Estádio Nacional. Morreu numa arena menor. No centro de detenção improvisado do Estádio Chile foi logo identificado por um oficial e teve uma primeira avalanche de chutes e coronhadas à vista de todos. Com várias costelas quebradas e um olho inutilizado, permaneceu imóvel 24 horas ao alcance da bota militar, sem alimento ou água. Naquele mesmo estádio, quatro anos antes, fora aclamado vencedor do primeiro Festival da Nueva Canción Chilena com “Oração de um trabalhador”.

No domingo dia 16 circulara a notícia de que alguns detentos seriam libertados, o que levou os demais a escrever mensagens para esposas, filhos, pais, amigos. Victor Jara foi um dos mais ansiosos. Só parou ao ser arrastado por dois soldados até uma saleta de transmissão do estádio. Mas conseguiu deixar para trás as duas folhas de papel que escreveu, rapidamente escondidas pelo advogado Boris Navia.

Não eram cartas para a mulher nem para as filhas. Era um poema. Não tinha título. Descrevia o ambiente à sua volta. Foi-lhe dado, post mortem, o título “Estadio Chile”.

Os detentos fizeram duas cópias, entregues a um estudante e um médico que seriam libertados. Um deles foi revistado. Navia, que escondera o manuscrito original numa fenda aberta na sola do sapato, foi levado para o centro de torturas do velódromo. Mas a terceira cópia alçou voo e correu mundo.

A última visão que Navia e seus companheiros tiveram de Jara foi do seu espancamento a golpes de fuzil na saleta do estádio. No final da mesma tarde, cruzaram o saguão principal para serem transferidos para o Estádio Nacional. Ali se depararam com cerca de 50 cadáveres espalhados pelo chão. Entre eles, o de Victor Jara.

Foi somente em 2009 que a investigação conduzida pelo juiz Miguel Vásquez conseguiu chegar ao nome do homem que teria apertado o gatilho do primeiro tiro contra a nuca do prisioneiro. Depois, o oficial teria ordenado aos soldados presentes que prosseguissem com a fuzilaria. Embora Pedro Barrientos negue jamais ter sequer cruzado com o músico, a família Jara espera que o Supremo Tribunal chileno encaminhe o aguardado pedido de extradição aos Estados Unidos.

Se Barrientos algum dia retornar, talvez se pergunte para que serviu tanta brutalidade. O Estádio Chile foi rebatizado de Estádio Victor Jara. As fitas máster das gravações do músico que a ditadura se empenhou em destruir foram laboriosamente substituídas por outras versões. Brotaram remixagens, remasterizações, foi lançada uma caixa com 9 CDs, republicada uma antologia com seus poemas. Bandas jovens o interpretam como um dos seus, companheiros velhos o cantam como no passado. Hoje, Victor Jara teria 81 anos.

Dorrit Harazim é jornalista

(Fonte: O Globo)

(crédito da foto: http://jorgewerthein.blogspot.com.br/2012/12/procesan-al-asesino-de-victor-jara-40.html)

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Vivendo na mudança

(continuação do post anterior)

Nós corremos dos sofrimentos, porque fugimos dos sofrimentos (do tigre) e caímos em um precipício. Nos agarramos tenazmente à vida, mas se prestarmos atenção, o dia e a noite, roem as raízes da existência e nós vamos cair, é só uma questão de tempo. Na verdade a vida é doce e bela se soubermos aproveitar o momento. Percebam, é muito bom estarmos sentados nas cadeiras agora, não é maravilhoso? Sintam essa maravilha, agora os joelhos não doem e podemos nos encostar, não é uma felicidade isso? Então, o sofrimento que nós enxergamos na vida é temporário, impermanente e é construído por nós.

Como? Ele é construído como Buda nos ensinou dentro das “Quatro Nobres Verdades”. Existe uma causa, a causa é nosso apego. Nos agarrarmos à coisas flutuantes querendo que elas sejam estáveis; nos agarramos ao arbusto querendo que ele seja firme e sólido e nunca caia. Mas isso é impossível, pois não é da natureza da vida, a natureza da vida é ser instável, nada é certo. Para sabermos viver temos que olhar nossos projetos como instáveis, nossos negócios como vendáveis, como falíveis, nossos empregos como passíveis de se perder, nossa saúde como passível de ser perdida.

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Se virmos que a vida é toda instável e não sólida, então, não poderemos construir nossa felicidade nos agarrando  à fantasia de uma estabilidade. Temos que considerar todas as coisas como findáveis, amores, pessoas, filhos, casas, empregos, negócios, empresas, todas as coisas são flutuantes e a felicidade não está em esperar que elas sejam boas, estáveis e firmes, pois elas não serão.

A vida é um fluxo cheio de coisas boas e ruins acontecendo. Podemos olhar para nosso país e nos perguntarmos: “por quê tanta corrupção, por quê as coisas não funcionam, por quê?” Mas estamos perdendo de vista o fluxo da vida. Este país começou com um genocídio, começou com os europeus espalhando roupas de pessoas infectadas com varíola aos índios, para os verem morrer em grande quantidade. Nações inteiras, como os Tamoios, foram liquidados assim. Existe um quadro do Vitor Meirelles, “O Último dos Tamoios”, que quando eu era criança olhava e pensava: “por que o último dos Tamoios”? Simples, porque não sobrou nenhum.

Sim, o mundo hoje não é bonito nem bom, mas só podemos entender como é melhor se olharmos para trás e vermos como foi e como agíamos no passado. Hoje há indignação com o mal, antes não existia. Era visto com natural. Então, não é um mundo bom, mas melhorou algo. Se olharmos o fluxo das coisas poderemos entender que há uma mudança contínua e temos que viver na mudança, pois está tudo mudando e nós mudamos junto, estamos aceitando toda a mudança sem lágrimas, porque é assim, este é o fluxo da vida e tudo que nos resta realmente na vida é comer os doces frutos vermelhos (referência ao conto zen do precipício contado na postagem anterior).

(Esses dois últimos posts foram retirados do excelente blog zen budista O Pico da Montanha é Onde Estão os Meus Pés).

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Há frutos a serem saboreados

(Extraído do blog zen budista O Pico da Montanha é Onde Estão os Meus Pés)

Ouvindo uma pessoa hoje, estávamos falando sobre a prática e ela me contou sobre a sensação do sofrimento, um sofrimento que havia no passado e que no momento não existe mais, mas o interessante é que as condições em si são as mesmas, a mesma vida, os mesmos problemas, as mesmas doenças, as mesmas pessoas.

Talvez na verdade eu possa adivinhar, que dado que o tempo passa , na realidade as condições são piores. No entanto surgiu tranquilidade e o sofrimento desapareceu, essa é uma coisa maravilhosa, porque mostra a capacidade da prática Budista de mudar a perspectiva com relação à vida.

Porque o sofrimento é construído, nós o construímos de acordo com as condições, mas a felicidade está disponível. A felicidade está plenamente disponível. Eis uma famosa história Zen:

Um homem que cai em um precipício estava sendo perseguido por um tigre. Ao cair, ele se agarra à um arbusto que havia na beira do precipício, olha para baixo e vê outro tigre. Percebe, então, dois ratos roendo a raiz do arbusto, um rato preto e outro branco. Ele observa que no arbusto existem umas frutas vermelhas. Então ele segura-se firmemente com uma das mãos, com a outra estende e pega uma das frutinhas e coloca na boca. “Que gostoso”, ele diz.

Alguém arrisca me dizer o que representam os ratos preto e branco?

O rato branco é o dia, o rato preto, a noite.
A cada momento, eles, dia e noite, roem a raiz de nossa vida. O arbusto irá se romper e nós vamos cair com ele, onde o tigre nos espera. O que nos resta fazer senão comer as frutas doces da vida? Existe a famosa pergunta, “qual o sentido de existir?”, “para que tudo isso?”, a resposta é: “Porque há frutos vermelhos doces para serem saboreados”.

(continua…)

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A praia de Nando e a meditação

Neste capítulo, Nando busca refúgio numa pequena casa no litoral após ser preso e torturado pelos agentes da ditadura. Lá, ele inicia a sua busca pessoal para seus dramas existenciais. Ele questiona o mundo exterior, provavelmente desencantado pelo período de profunda crise pelo qual passava o país na época, e se interioriza, buscando dentro de si a melhor maneira de se viver. Essa nova maneira de Nando enxergar o mundo está nitidamente exposta nesse trecho:

– Eu acho a tua disposição de lutar a qualquer preço profundamente louvável – disse Nando – mas no momento temos maiores chances de fazer apenas o mais difícil, que é mudar a vida em vez de mudar o mundo.
– Não entendi disse Jorge.
– Entendeu sim, disse Nando. – Todo homem tem uma vida no mundo que pode ser histórica se ele quiser: altera o mundo, as condições do mundo, adapta o mundo a suas idéias. E tem a vida-vida, vida privada de todos os homens. Em relação ao mundo ela é um pouco como a vida das plantas, feita de água, de sol, de ar. E de amor principalmente, no caso dos homens. Amor de bicho, quero dizer, amor de mulher. Eu estou concentrado nesta vida, que tem pouca ligação com a outra.
– Se entendo certo – disse Djamil – Nando não quer que o mundo fique como está mas quer alterá-lo de forma diversa, mais lenta. Talvez no fim mais permanente.

Fica claro para o leitor que Nando busca mudar a si mesmo primeiro, para depois tentar mudar o mundo. É uma perspectiva pela qual nutro grande simpatia…

Mais adiante, outro trecho que expõe este “olhar para dentro”:

– Eu ouvi o que você disse a Jorge outro dia e não quero ficar te chateando. Mas você acha que falhamos da primeira vez porque esquecemos de fazer antes a agitação dentro de nós, os comícios interiores, as ligas de grupos de nós próprios contra nós mesmos. Não é isto? Só depois de levarmos ao paredão alguns cadáveres nossos e estabelecermos o triunfo absoluto da revolução com predomínio da idéia de nosso incontestável ser atual estaremos aptos a atear o fogo geral.
– Sim, mas não esqueça, Djamil, que uma vez que nos descobrirmos podemos exteriorizar uma revolução diferente daquela que propúnhamos quando na realidade ainda propúnhamos nós mesmos a nós próprios. Isso é que eu gostaria de ter feito seu amigo Jorge compreender. As segundas vindas passam sempre despercebidas porque o deus que volta, volta diferente. Os mansos voltam violentos, os coléricos voltam conciliatórios.
– Sim – disse Djamil compreendendo mas ainda não aceitando. – Que sofrimentos precisamos suportar para chegar à conclusão sobre nós mesmos?
Andar descalço na beira do mar é muito bom – disse Nando – principalmente quando não há seixos.

Simplesmente genial…

(Na hora me lembrei de um outro Nando, o Reis, que em “A Letra A” já dizia que “quando a gente fica em frente ao mar, a gente se sente melhor”…)

Resumindo, Nando não indica nenhuma mortificação ou sofrimento para se alcançar um estágio de possível iluminação interior que gere um autoconhecimento genuíno. Indica um outro método, mais leve e poderoso: a meditação. Não aquela meditação estereotipada, como esta. Mas aquela autêntica, verdadeira; aquela através da qual conseguimos olhar para dentro de nós mesmos com honestidade e compaixão. Seja sentado numa almofada em padmasana ou siddhasana,  seja deitado antes de dormir. Ou, como prefere Nando, caminhando na beira do mar…

 

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Quarup

“Chegou a hora de ler este livro.”

O livro

O livro

Este foi o pensamento que me veio após sair do cinema e assistir “Xingu“.

Já tinha ouvido falar deste livro, através do Osvaldo (Santa Cruz), grande amigo e meu mestre das montanhas, que, em inúmeras ocasiões, no clube ou nas próprias montanhas, “cansou” de me falar da importância de se ler este livro e o quanto ele era representativo para a compreensão do nosso país e de uma parte importante de nossa história. E por causa desta importância, “Quarup” acabou se transformando numa via de escalada em Petrópolis, em 1982, após uma série de investidas lideradas pelo próprio Osvaldo

O filme é igualmente fantástico. A saga dos irmãos Villas-Boas, se não tivesse sido relatada por eles na época, bem que poderia se transformar no roteiro de um romance de ficção. A busca pelo primeiro contato com os índios do Alto Xingu, as belíssimas cenas de uma natureza selvagem e até então intocada, os dramas pessoais e coletivos, tudo isso o torna um grande filme.

Uma verdadeira aula de nossa história e uma linda homenagem a esses irmãos que foram verdadeiros heróis, ao salvarem milhares de vidas dos nossos irmãos índios e ajudando na preservação de um ecossistema tão frágil, numa época em que isso não era visto como importante. Além de visionários, foram heróis de verdade e não esses de mentirinha que são inventados pela grande mídia (não dá para não se lembrar dos nossos “heróis” do Big Brother, segundo o Bial…)

Foi aí então que tirei o livro (comprado a mais de um ano em um sebo), do armário e comecei a acompanhar os dramas existenciais de Nando e sua aventura pelo Xingu…

***

O livro varre épocas distintas do Brasil no século XX. Desde o final da República Velha até o período negro da ditadura militar. E no desenrolar desses e outros fatos históricos — como o suicídio de Vargas e a ebulição do período pós-JK —  acompanhamos a vida de Nando, descrita assim na contracapa do livro:

Um jovem padre que emerge da escuridão das catacumbas para o contato com uma realidade que só é brilho e luz nas aparência. Descobrindo a si próprio como homem, conhecendo a seus semelhantes como seres humanos, não mais como entidades esquemáticas, Nando despe seu hábito, despe-se de seus preconceitos e temores e caminha conscientemente para o seu momento de glória, construído sobre o lodo do mundo“.

***

A grande aventura pela busca do centro geográfico brasileiro, assim como os primeiros contatos com os índios, descritos no capítulo “A Orquídea”, e o mergulho de Nando no seu mundo interior, após ser preso e torturado pela ditadura, narrados em “A praia”, são os pontos altos do livro, na minha opinião. E foi justamente este capítulo em especial que me motivou a escrever este texto e o próximo texto…

continua em “A praia de Nando

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Sobre atravessar um rio

Nós temos a capacidade de acordar. Todos estamos profundamente tomados por essa capacidade. Mas sem a prática ela não se manifesta, por isso precisamos da prática.

Não adianta sentar no bar, pedir uma garrafa de cachaça e explicar brilhantemente sobre o zen. Tem gente capaz de fazer isso, eles lêem vários livros, se reúnem nos bares e discutem – Porque o zen diz isso e o mestre Tal falou aquilo, porque o budismo, porque o taoísmo…

Eles sabem muito, e não sabem nada.

Esses dias alguém me rememorou uma história típica do zen. Encontraram-se a beira de um rio, um mago, um yogue e um mestre zen. E o yogue disse: “Vou mostrar à vocês como se atravessa um rio”. Elevou-se no ar e pousou na outra margem. Então o mago disse: “Isso não é nada”. Foi até a beira do rio e foi caminhando por sobre a água até o outro lado. O mestre zen, olhando tudo aquilo, arregaçou a roupa, entrou no rio e foi com muita dificuldade, caindo, tropeçando, nadando, até que chegou a outra margem todo ensopado. Começou a torcer a roupa, olhou para os dois e disse: “ Vocês não sabem nada sobre atravessar um rio.

Atravessando o rio

14/05/2011
Monge Genshô

(Trecho extraído de um texto do Monge Genshô publicado aqui no site http://www.daissen.org.br)

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A verdadeira paz

Certa vez, um sábio imperador convocou os pintores mais talentosos do mundo e lançou o desafio: daria um prêmio fabuloso àquele que fizesse o melhor retrato da paz. Mãos à obra, o resultado foi uma série dos quadros mais incríveis jamais vistos. Dentre eles, o monarca selecionou dois finalistas. No primeiro, via-se um lago cristalino, que refletia as montanhas verdejantes à sua volta e os pássaros voando no céu azul. Já no segundo, um despenhadeiro erguia-se sob um céu negro, cortado por relâmpagos, enquanto uma cachoeira desabava morro abaixo junto da tempestade. Todos se maravilhavam ao ver a primeira obra, já prevendo a sua vitória; afinal, a outra era o oposto da paz.

Porém, para assombro geral, foi justamente a segunda a escolhida pelo imperador, que explicou sua decisão: “Vocês não observaram o detalhe mais importante da pintura. Reparem ali”. Todos, enfim, notaram: atrás da cachoeira, saindo das ranhuras da rocha, havia um pequeno arbusto e, nele, um ninho de passarinho – nesse ninho, alheio ao caos reinante, a mãe passarinho chocava seus ovos em paz. “Estar em paz não significa estar onde não há confusão ou dificuldades”, disse o imperador. “A verdadeira paz acontece quando, mesmo em meio a tudo isso, você permanece calmo em seu coração.

Paz

(Trecho do excelente texto do jornalista Lauro Henriques Jr. publicado em março de 2012 na revista Trip – sim, espiritualidade na Trip. Se chama “Eu não vi a luz, mas sei quem viu” e é um breve resumo de várias entrevistas feitas com alguns dos maiores nomes da espiritualidade e autoconhecimento de todo o mundo, de várias linhas e tradições, e que renderam a publicação do livro “Palavras de poder: entrevistas com grandes nomes da espiritualidade e do autoconhecimento no Brasil e no mundo” (Editora Leya). A leitura do texto completo é altamente recomendável e pode ser feita aqui.)

* Crédito da foto: Pedagogia da Paz.

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