Solidariedade na Região Serrana

Esta não era a maneira que imaginava para estrear o blog. Tinha em mente algo mais leve do que a catástrofe que se abateu sobre algumas áreas da Região Serrana do RJ. Estive por lá no último dia 20/01 (feriado aqui no Rio) e pude ver de perto o tamanho da tragédia.

Neste dia, eu e mais 12 montanhistas da Unicerj, subimos a serra em direção à Nova Friburgo, cidade esta que, segundo informações que tínhamos pela imprensa, foi a cidade mais afetada. Fomos levando todas as doações que o nosso clube conseguiu arrecadar junto aos sócios, com o objetivo de chegar aos locais mais afastados e cujos acessos estivessem ainda bloqueados para veículos. Como somos um grupo de montanhistas, a idéia era fazermos algumas trilhas para podermos chegar nessas localidades, levando os mantimentos nas costas.

A boa notícia foi que não precisamos fazer isso, já que a maioria dos acessos já estavam liberados. Saímos do centro de Friburgo, de uma base de apoio feita na igreja CEIFA, juntamente com o movimento Viva Rio. Neste local, usaram o auditório da igreja para armazenar os mantimentos que chegavam, onde mais ou menos 100 pessoas trabalhavam como voluntários. Ali esperamos a chegada do William, morador da cidade que, segundo a coordenadora dos trabalhos, conhecia bem a região e com isso nos guiaria em busca das localidades mais afetadas. Enquanto ele não chegava, ajudamos a carregar e descarregar alguns veículos com os diversos mantimentos que chegavam a todo instante. Trabalho braçal mesmo!

Dali pegamos nossos carros e começamos a vasculhar a região em busca de localidades que porventura ainda estivessem sem acesso. Passamos por Mariana, Conquista, Campinas e Rio Grande de Cima. As cenas que víamos pelo caminho eram desoladoras. Muita destruição. Sabíamos que o que tinha acontecido era algo fora do comum, mas ver com nossos próprios olhos o rastro de destruição causado pelas fortes chuvas era um choque de realidade. Uma verdadeira catástrofe. Era difícil encontrar alguma montanha (ocupada ou intocada) pelo caminho que não tinha algum tipo de deslizamento.

Nesse giro, muitas vezes por estradas vicinais em locais bem afastados, em nenhum  momento fomos “bloqueados” por qualquer queda de barreira. E olha que encontramos várias (umas 30, mais ou menos), mas TODAS já haviam sido liberadas pelas forças de ajuda. Nos locais ainda problemáticos, como a estrada Teresópolis-Friburgo, haviam muitas máquinas e homens nas pistas. Se as autoridades públicas foram incompetentes para alertarem as pessoas do risco que estavam correndo, precisa-se registrar aqui que foram competentes quando era urgente normalizar as coisas.

Na Teresópolis-Friburgo pudemos ver melhor o tamanho da catásfrofe. Condomínios inteiros destruídos, vales com casas completamente soterradas (lama chegou no telhado), dezenas de montanhas “rasgadas” pelos deslizamentos. A estrada em si foi muito afetada, com pedras gigantescas e toneladas de terra no meio da pista ainda, apesar de já estarem a mais de uma semana trabalhando para liberar o acesso.

Desta maneira, não precisamos carregar as doações em nossas mochilas, já que com nossos carros conseguimos chegar aos locais mais afetados. Despachamos uma parte dos mantimentos na localidade de Mariana, mas a maior parte das doações deixamos na localidade de Rio Grande de Cima, perto de uma estação de captação de água para a cidade. Neste local, tínhamos sido informados pela base lá no CEIFA/Viva Rio que a ajuda só tinha chegado por helicóptero, somente 2 dias antes. E que não se conseguia chegar lá de carro. Para a nossa surpresa, vimos que o acesso já tinha sido liberado (disseram que foi no dia anterior). Desta maneira, conseguimos chegar até a estação, já que dali pra cima, como a ponte que cruza o rio foi destruída, só a pé.

Ficamos sabendo que pessoas de outras localidades por perto estavam se abastecendo ali. E como já passava das 19h (estávamos desde às 5h da manhã na rua), decidimos não levar as coisas até esses locais, deixando as doações nesta estação. Afinal de contas, precisávamos voltar para a cidade do Rio, distante uns 150km dali.

Voltamos para a nossa base no centro de Friburgo, onde o trânsito e a poeira eram infernais. Ajudamos a descarregar mais alguns mantimentos que chegavam no CEIFA/Viva Rio e comemos algo que foi oferecido pelos voluntários que organizam a ajuda, numa casa ao lado, gentilmente cedida pelo proprietário para ajudar nesse esforço de solidariedade. Dali, partimos de volta ao Rio, onde chegamos por volta de meia-noite. Muito cansados, é verdade, mas com a sensação de dever cumprido em relação a esta região maravilhosa, palco de paisagens maravilhosas e de inesquecíveis excursões.

***

Não me lembro de ter visto algo igual no Brasil. Normalmente nessa época do ano, chuvas intensas causam tragédias. Mas isto que aconteceu na Região Serrana do RJ extrapolou: foi uma catástrofe de grandes proporções. Os números falam por si: 885 mortos (oficialmente) e mais de 400 desaparecidos. Ou seja, a contagem de mortos é da casa dos milhares.

Além desses números terríveis, o que impressionou também foi o tamanho do estrago natural. Montanhas inteiras “derreteram”. Várias outras ficaram com verdadeiros “rasgos” em sua cobertura vegetal, deixando exposta apenas a rocha nua.

E foi isso que me chamou a atenção: a maioria dos deslizamentos ocorreu em áreas menos densamente povoadas em relação às áreas urbanas dessas cidades. E em montanhas que possuíam a sua cobertura vegetal intacta. Ou seja, as habitações irregulares, em áreas de risco, não foram as causadoras desta catástrofe, apesar de terem contribuído para engrossar as estatísticas de óbitos. Mas ouso afirmar que se a chuva torrencial deste dia fatídico tivesse se concentrado nas áreas mais densamente povoadas – por exemplo, nas favelas da periferia – não contaríamos milhares, mas dezenas de milhares de mortos.

***

As autoridades locais, apesar de terem feito um trabalho excelente pós-desastre, falharam fragorosamente no que se diz respeito ao quesito mais básico quando acontecem essas situações: salvar vidas humanas. É quase um consenso de que nada poderia ter sido feito para se evitar tal chuva e as suas devastadoras consequências naturais. Mas muito poderia ter sido feito para alertarem as populações locais de que o risco de uma tragédia era eminente. A tempestade foi prevista e a sua intensidade gigantesca foi detectada. Sabendo que o solo já estava encharcado por chuvas e mais chuvas desde o dia 21 de dezembro, porque não alertaram a população com sirenes para se retirarem de suas casas e procurarem abrigos construídos justamente para essas emergências? Abrigos? Sirenes? Mesmo sendo uma região constantemente castigada por tais eventos climáticos, não existem abrigos, sirenes e muito menos um serviço integrado de previsão e alerta para os habitantes da região. A cidade do Rio de Janeiro acabou de montar um sistema desses e o governo federal espera implementar algo parecido pelo país a fora nos próximos quatro anos. À conferir (e cobrar).

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Tirei algumas fotos desta excursão solidária. Podem ser vistas aqui:
http://picasaweb.google.com/cadu.lessa/ExcursaoSolidariaANovaFriburgo

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