“Mensalão” 2.0, corrupção e nosso modelo político (parte I)

Antes de começar, faz-se necessário dois esclarecimentos:

Primeiro. Quem me acompanha lá no Twitter sabe que gosto de falar TAMBÉM sobre política, mas não somente. Mas neste local, não pretendo gastar o meu tempo pra ficar falando sobre o mais do mesmo da política. Apenas acontecimentos políticos de muita relevância (algo muito escasso atualmente) ou alguma análise que ainda não tenha lido por aí. E esta última é a razão deste post.

Segundo. “Mensalão”, assim mesmo, entre aspas. Por que a raiz da palavra indica pagamentos mensais a deputados em troca de apoio. Mas sabemos que a maior crise do governo Lula está relacionada com caixa 2 e o loteamento de cargos no governo federal, que geralmente resulta em esquemas de corrupção para favorecer os partidos, em troca de apoio político.¹

Após este preâmbulo…

Já tinha percebido, pelo noticiário da midiazona, uma tentativa de se reavivar a história do “mensalão” e colá-la no governo Dilma. Até que li este texto do Elio Gaspari, que é a senha para a versão 2.0 do mensalão.

Mas para que um eventual “mensalão 2.0” possa “pegar” junto ao povão e faça o maior estrago possível, no governo, cria-se antes um clima para tal. Quem leu ultimamente os jornalões da midiazona deve imaginar que só existe corrupção neste país. E nada mais. Manchetes e mais manchetes sobre corrupção, aproveitando o gancho desta crise no Ministério dos Transportes. Eis algumas aqui, aqui e aqui.

A “tragédia da corrupção”. No “país da corrupção”. Uau! É o fim do mundo! Óbvio, até uma criança sabe que existe corrupção no Brasil. E pra quem já é um pouco mais crescido, existe em qualquer lugar do mundo. Vide o escândalo dos grampos na civilizadíssima Inglaterra, onde a lama de Murdoch está bem próxima do primeiro ministro James Cameron.

Mas onde quero chegar? O PR (ex-PL, coincidentemente o partido do mensalão 1.0), partido que loteou a pasta dos transportes para ter o seu próprio esquema de corrupção, foi varrido de lá e não gostou. Muitos ficaram magoados. Outros revoltados. “Como é que perdemos uma boca dessas?”, muitos devem estar se perguntando. Como esse é um jogo que não se joga sozinho, ou seja, eles roubam e o governo finge que não vê, o PR deve ter muita munição contra o governo. Mas a grande dúvida é: vão querer contra-atacar? Vão querer jogar no ventilador, assim como fez o Roberto Jefferson? Não sei. Vai depender muito da habilidade política (leia-se como neutralizar os revoltosos) da Dilma e do governo.

De um modo geral, a tática do governo me parece simples. A base aliada é enorme e alguns aliados são um estorvo (só em relação ao PR, o que falar de Valdemar da Costa Neto e Garotinho e sua bancada evangélica?). Como o governo não dá sinais que fará reformas constitucionais, não precisa tanto assim de apoio no parlamento. A conclusão óbvia é “limar” esses caras do governo e “tapar o ralo” da corrupção na pasta dos Transportes. Coloca-se lá técnicos de carreira, sem vínculos partidários e pronto. Mais transparência e bom uso do dinheiro público. Seria o melhor dos mundos, mas porque isso não é feito? Simplesmente por causa desses esquemas, em troca de apoio no Congresso. Mais transparência, menos apoio político. Infelizmente.

A tática governista parece seguir também pela já manjada “dividir pra conquistar”. Sem dúvida, existem parlamentares do PR (principalmente no Senado) que não querem deixar o governo. Não querem perder as benesses do governo, mesmo sem ter tanto poder quanto tem quando no controle de um ministério. Mas será que os perdedores, os revoltados com o fim do esquema ficarão quietos?

Essa reportagem do jornal O Globo resume bem todas essas questões levantadas:

http://oglobo.globo.com/pais/mat/2011/07/25/dilma-avisa-que-indicados-para-transportes-terao-que-apresentar-ficha-limpa-924974530.asp

Sem dúvida alguma, é um jogo perigoso se pautar pelos “escândalos” reverberados na midiazona, em busca do apoio da classe média, em detrimento de um apoio sólido no parlamento. E nesses tempos de internet e exigência da sociedade por mais transparência, fica muito difícil para o governo fingir que nada está acontecendo. Isso me lembra este texto do Azenha, que fala justamente sobre o descompasso entre a população – e seus anseios por mais ética na política e transparência com o dinheiro público, potencializada pela internet – e nossos representantes políticos.

É um jogo pra gente grande, para craques da política. Nem Lula conseguiu jogá-lo no início do seu governo, devido a sua inexperiência como presidente. Dilma saberá e conseguirá fazê-lo? Se saberá não sei. Mas tenho um palpite de que conseguirá (ou pelo menos terá condições para isso). E a razão é simples: Dilma tem uma correlação de forças no Congresso Nacional muito mais favorável do que Lula teve a partir das eleições de 2002. No Senado então, a diferença é brutal.

Com certeza essa “faxina” é algo, no mínimo, interessante. Na minha opinião, ótima para o país. Mas não foi a primeira realizada pela Dilma, pois já foi feita também no setor elétrico. Lembram-se do Eduardo Cunha e do seu feudo em Furnas? Pois é. Mas qual será o limite entre a “faxina” e a “governabilidade”?

Existe esperança de mudarmos esse triste quadro?

(continua)

¹ Atualização em 15/09/2011: O nobre ex-deputado Roberto Jefferson entregou  suas alegações finais de defesa. O texto está aqui. Resumo: o pagamento mensal de mesada aos deputados, em troca de apoio parlamentar NÃO existiu. A imprensa, que em 2005 comprou, acriticamente, a tese dele, será que fará isso novamente?

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