Um Pico Maior de Friburgo inesperado

Já pensou se fôssemos para Salinas hoje e escalássemos o Pico Maior amanhã? Hein, hein?

O restante do meu sábado e meu domingo seriam completamente diferentes se não tivesse recebido uma proposta tão “indecente” como essa do Leo. Afinal de contas, estava numa festinha de criança em plena tarde de um sábado ensolarado e a programação para o restante do sábado era brincar com as crianças, alugar um bom filme pra ver a noite com a Mônica. No domingo, nada de muito diferente, com exceção de uma ida ao clube de dia e ao circo, à noite. Enfim, um programa caseiro…

Mas a proposta do Leo ficou na minha cabeça durante a festa. “Seria legal poder voltar lá depois de oito anos…”. Mas só a complexidade da coisa bastava pra (tentar) me fazer cair na real. Sair do Rio rumo à Friburgo, à noite, encarando umas três horas de viagem, mais uma de caminhada até o acampamento onde estaria nossos amigos – se tratava de uma excursão da ETGE/2011, onde a UNICERJ pretendia escalar as grandes montanhas dos Três Picos de Salinas – dormir num acampamento, acordar no dia seguinte às 4 da madruga e passar o dia INTEIRO na montanha.

Confesso que, se por um lado a montanha me atraía, por outro essa complexidade fazia-me refletir. Mas o Leo estava resoluto. Ele estava escalado, desde o início do ano, quando o clube programou a 2ª. Fase da ETGE, para ser o Guia principal da escalada que tentaria chegar ao cume do Pico Maior. Só que a mesma caía justamente no dia da festa de aniversário do filho. Não dava. Cancelou sua ida, fazendo com que o Bonolo mudasse os planos iniciais. A ETGE então tentaria todos os principais cumes de Salinas, menos o Pico Maior.

“Mas por que não ir pra Salinas DEPOIS da festa?”, deve ter pensado o Leo.

Ele queria ir, só faltava uma companhia. Até que aparecei na festa e ele me fez a tal “proposta indecente”. Após uma “artimanha” para convencer nossas esposas (“Bia, a Mônica liberou o Cela para ir comigo”, ANTES desta dar o ok verdadeiro…rs), combinamos tudo. E assim, às 17:30h o Leo me busca em casa e rumamos para Salinas.

***

Após 2h30m de viagem, estacionamos o carro em Salinas, partindo para a caminhada até o acampamento base, no Mascarin. É dali que saem praticamente todas as excursões que são realizadas em Salinas pela Unicerj.  Após uma caminhada de 40min, escutamos as vozes dos nossos companheiros que jantavam no acampamento, que mal acreditavam no que viam: dois seres saindo do breu da escuridão, animados para escalarem no dia seguinte! Após a confraternização, conversamos com um estupefato Bonolo, cuja cabeça fervia por causa da mudança (radical) nos planos já traçados pro domingo. Cheguei a brincar com ele que, caso a nossa inesperada chegada fosse um estorvo, que ele nos ignorasse e fizesse o que estava programado, enquanto eu e o Leo iríamos escalar o Pico Maior sozinhos. Ele, fazendo um gesto conhecido com os dedos, rindo, disse: “Nem f*&!endo! Também quero ir com vocês!”

***

E assim, domingo, dia 07/08/2011, às 04h30, levantamos de nossas barracas. Era o início de uma jornada que levaria o dia inteiro. Além de mim, do Leo e do Bonolo, também outro guia do clube, o Favre, e o aluno da ETGE André Ribeiro. Para esses dois últimos, seria a primeira vez nesta montanha.

Saímos do acampamento às 05h00 e após uma caminhada de aproximadamente 1 hora, enquanto o sol nascia no horizonte, chegamos na base da via. Sem perder muito tempo (condição básica para TENTAR chegar ao cume), começamos logo a escalada. E o desempenho não foi nada bom… O Leo, que ia sempre na frente por causa da sua qualidade técnica e profundo conhecimento da via Sylvio Mendes (depois de várias idas lá na época da recuperação da mesma), nos chamou a atenção, dizendo que, naquele ritmo, não conseguiríamos nem tentar chegar ao cume. Talvez por ainda estarmos frios, ou ainda um pouco enrolados com o material que subiria e o que ficaria (seja na base ou ao longo da via), ou talvez pela demora nos procedimentos de subida (seja escalando ou “jumareando”¹) ou, o que é mais provável, por causa disso tudo somado.

Mas após essa “sacudida” do Leo, conseguimos focar na escalada, subindo todos quase no mesmo ritmo, inclusive o André, surpreendendo a todos. E após algumas horas de escalada, às 10:30h entrávamos na última grande chaminé. Dali para o cume estava perto e aí sim, tive a certeza de que atingiríamos o cume.

A grande chaminé final

E assim foi. Antes do meio-dia o Leo chega no cume, me trazendo em seguida e depois o André. Depois foi a vez da segunda cordada, com o Favre e o Bonolo chegando poucos minutos depois.

Alegria geral! Muitos e efusivos cumprimentos! Fotos e mais fotos! Sorrisos estampados nos rostos de cada um! A vista do cume era fantástica! Avistávamos desde as montanhas do Rio e as do Parque Nacional da Serra dos Órgãos (PNSO), à oeste, até as montanhas do Parque Estadual do Desengano e as próximas da Região dos Lagos, ao leste. Além, claro, de todas as montanhas do Parque Estadual dos Três Picos, ao nosso redor.

E a sensação de paz, indescritível…

Vista do cume

A equipe

A Unicerj, após quase 7 anos, atingia novamente o cume do Pico Maior de Friburgo. A última vez foi numa excursão em 25/09/2004, numa excursão com o próprio Leo, juntamente com o Santa Cruz e o Rodrigo. Eu e o Bonolo voltávamos lá também, 8 anos após uma excursão pela ETGE-2003, em que nós, juntamente com o Porto, éramos os alunos, guiados pelo Borges e o Godinho.

Após um merecido farnel e um tempinho de descanso, iniciamos os procedimentos de descida por volta das 13h30 (nossa hora limite). Não importa onde estivéssemos, a partir dessa hora desceríamos, sem choro nem vela. E duas horas e meia e 14 rapéis depois, retornávamos à base da via novamente. Cansados fisicamente, mas com a mente límpida, tranquila, em paz…

André num dos rapéis

Chegamos de volta ao acampamento às 17h, com nossos companheiros, que tinham ido à Caixa de Fósforos, nos recebendo calorosamente. Arrumamos as tralhas de acampamento e partimos de lá por volta das 18h, chegando meia-noite novamente em casa.

Os Três Picos de Friburgo, chegando no acampamento

Enfim, um domingo realmente BEM diferente do planejado. Inesperado. Memorável. Inesquecível. Como são os grandes momentos da vida…

***

¹ “Jumareando” é um termo que vem de um equipamento chamado jummar, que auxilia na ascenção de um escalador em uma corda previamente fixada.

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