Juros no Brasil, um escândalo

A ideia de escrever sobre os juros – escandalosamente campeões mundias – praticados no Brasil surgiu no final de agosto desse ano, quando o nosso Banco Central decidiu – de forma surpreendente, para o mercado – reduzir em 0,5% (!) nossa taxa de juros, saindo dos então estratosféricos 12,5% para 12%. Houve uma gritaria de tal maneira, com direito a “faniquitos” de vários “analistas” (entre aspas mesmo, porque estão mais para torcedores que para analistas de verdade) do tal mercado, que parecia que era o fim do mundo. Esses mesmo não hesitaram em decretar: a independência do BC e o sistema de metas de inflação acabaram.

Acabei não escrevendo na época por diversas razões. Mas, com o passar do tempo, fui coletando informações econômicas, seja na imprensa tradicional, seja em blogs (o principal deles o do Luis Nassif) e fui “rascunhando” esse texto. Até que dezembro chegou e um fato importantíssimo aconteceu, me forçando a terminá-lo. Por favor, leia até o final para descobrir que fato foi esse e o que aconteceu até lá.

Bem, na época (início de setembro), me perguntava: quem será que está certo nesta discussão sobre os juros? O BC ou o tal mercado? Mas você pode retrucar, perguntando também: por que tentar entender isso? O que isso tem a ver com a minha vida? Bem, coloco abaixo algumas informações de julgo relevantes:

  • você sabia que os juros consumiram, nos últimos 12 meses, R$ 231 BILHÕES do orçamento (dinheiro meu e seu que vai para o Tesouro Nacional)?
  • você sabia que, com essa grana, daria para custear 17 VEZES o Bolsa Família, que com R$ 13 bilhões atendeu 60 milhões de pobres e miseráveis em 2010?
  • você sabia que, mesmo com essa queda, o Brasil ainda é o campeão mundial de juros reais (em torno de 5%/ano), muito a frente da 2a. colocada, que é a Hungria (em torno de 2,5%, ou seja, o dobro)?
  • você sabia que os especuladores internacionais ganham em rios de dinheiro aqui não apenas por causa desses juros (no mundo desenvolvido as taxas variam entre 0% e 2,5%), mas também com a variação cambial, num círculo vicioso que está detonando com nossa economia?

Pois é. São questões importantes que não vemos serem claramente debatidas em nossa grande imprensa. “Não é para o nosso bico”, diriam nossos “çábios” economistas, que se julgam os únicos aptos a entenderem disso, decretando suas verdades.

Não pretendo entrar em detalhes, analisando modelos econométricos e os diversos índices de nossa economia. O intuito é apenas ilustrar como o (pouco) debate que existe a respeito já nasce viciado. Por aqueles que, por sua vez, estão viciados em juros altos. Afinal de contas, é uma delícia poder ganhar 12% ao ano sem nenhum esforço, não é?

Um pequeno exemplo daqueles (cujo porta-vozes se encontram na nossa grande imprensa) cuja turma deseja juros estratosféricos para combater a nossa igualmente “estratosférica” inflação de 6,5% (!)

A primeira, a indefectível Míriam Leitão. Eis aqui algumas pérolas dela: o BC cedeu às pressões políticas e se mostrou fraco, incompetente.

Para ela, o BC é fraco. Uau! Quanta certeza, hein? Dá para perceber que não apenas os economistas decretam certezas, mas igualmente alguns jornalistas. A análise dela é rasa, pois toma como única variável a inflação na definição da taxa de juros, ignorando todas as demais variáveis econômicas, como crescimento, crédito, emprego e câmbio. A Míriam nos brinda com um xemplo de arrogância ou de incapacidade intelectual mesmo? Ou será os dois?

Exemplos como esse surgiram de montão na época. É só conferir o que disseram Maílson da Nóbrega (do Sarney, lembra?) e dos próceres da era FHC como Affonso Celso Pastore, os irmãos Mendonça de Barros.  Basta dar uma procurada. Mas nada se compara ao inacreditável Alexandre Schwartsman – desse aí tem um exemplo fantástico de cegueira no final desse texto.

A Míriam, esses economistas (?) e os demais “analistas”, no mínimo chateados com essa nova postura do BC, temem que o BC tenha perdido a independência. Como se o BC fosse uma entidade extraterrestre, totalmente desligada da realidade brasileira, formada por técnicos infalíveis. Sobre essa “independência” do BC, tem um post no Nassif que é leitura obrigatória: o mito do Central Independente.

É interessante notar que quando o BC sobe os juros, é louvado por esses jornalistas e analistas. É tido como independente, sábio, prudente. Agora, quando o movimento é inverso e contraria essa galera dos juros altos e mamata fácil, sai de baixo…

Um belo resumo desse “surto” que se acometeu a grande mídia sobre os juros, pode ser lido aqui:

É óbvio, existem exceções na grande imprensa, felizmente. Uma delas é a Cláudia Safatle, articulista do Valor Econômico, um jornal que trata a economia como algo mais sério, sem as torcidas e distorcidas dos outros jornalões. E esta entrevista com Sérgio Werlang, ex-diretor do BC e um dos responsáveis pelo regime de metas de inflação.

Já o discurso daqueles que consideram que a taxa de juros deveria sim, baixar, é mais variado, contendo mais informações e argumentos mais sólidos. Na época, a defesa mais veemente do BC veio do ex-ministro Delfim Netto. Ótimos textos dele, aqui e aqui.

Mas existem outros ótimos textos, como do economista Paulo Nogueira, do sempre equilibrado jornalista e blogueiro da Época Paulo Moreira Leite, do economista e ex-secretário de fazenda do governo de SP (gestão Mário Covas) Yoshiaki Nakano e do professor de economia da UFF, Marco Aurélio Cabral, saudando essa virada nos juros como um novo capítulo da história econômica brasileira.

Além desses textos, coloquei abaixo alguns do incansável defensor das quedas de juros nesse país, o jornalista econômico Luis Nassif, cujo blog é de leitura obrigatória para mim. O Nassif, na época, ilustrou bem esse absurdo dos juros com esses textos:

Selecionei textos que enriquecem o debate não apenas de jornalistas e economistas de fora do governo, mas também do principal deles, o próprio presidente do BC. Ele deu uma entrevista ao Valor Econômico explicando e dando bons argumentos para a decisão de baixar os juros. Só não entende quem não consegue ou deseja entender.

Na época compilei todas essas informações e perguntava: quem estará certo? O BC com suas detalhadas análises técnicas ou os “juristas” e seus porta-vozes na grande imprensa, com suas análises superficiais e viciadas?

***

Um adendo: mal os juros foram baixados, a subida forte do dólar na sequência fez com que o terrorismo de mercado viesse a atuar novamente, decretando que esta alta iria elevar ainda mais a inflação. Apelaram até para o pãozinho! Para quem já sacou o espírito da coisa, esse terrorismo inflacionário era apenas um pretexto para que os juros voltassem a subir. Como vimos nos meses seguintes, a inflação não explodiu. Pelo contrário, até recuou, como era esperado por todos os analistas econômicos sérios e bem informados.

***

Mais de um mês depois o BC voltou a cortar os juros, em 0,5%. Dessa vez, sem a gritaria da outra vez. Um sinal de que o BC estava certo e os “jênios” econômicos errados? Como disse o Paulo Moreira Leite na época, esses economistas erraram.  De novo.

Então, pouco a pouco, começamos a ler (tímidos) diagnósticos que o BC tinha acertado na queda dos juros, com uma atuação inesperada para dias anormais. Como disse Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do BC e atualmente no mercado, “o BC fez o diagnóstico correto. Hoje temos que nos curvar ao que está acontecendo“. Ponto.

Estariam os mercadistas se rendendo aos fatos e ao BC? Será o fim da confraria daqueles que querem juros altos e assim mamar facilmente nas tetas do Tesouro Nacional? Possivelmente sim, ainda mais após ler essas razões e fundamentos que dão ainda mais crédito ao BC e as estimativas de uma taxa de um dígito em 2012. Enfim, uma vitória – parcial, como veremos a seguir – do nosso Banco Central.

***

Disse parcial porque, agora em dezembro veio a notícia bem ruim: nossa economia está estagnada. Isso mesmo, o crescimento do PIB foi ZERO, num país que urge crescer para ajudar a corrigir seus desequilíbrios históricos – principalmente os sociais. Ou seja, o BC errou. Não ao baixar os juros em agosto, mas ao não acelerar essa queda agora, evitando que nossa economia fosse à lona. Resumindo: se curvou ao mercado e agora paga o preço ao ceder ao terrorismo de mercado.

Ao se observar a gritaria contra a queda de juros no final de agosto e o resultado medíocre do PIB dá para termos uma boa noção da quantidade de besteiras que foram ditas e do tamanho da ignorância (ou má fé, sei lá) de algumas pessoas. Como a do Schwartsman, que pode ser conferida aqui.

Enfim, observaremos agora duas situações interessantes. Pelo lado econômico, veremos o governo correr contra a desaceleração do PIB. O ministério da Fazenda está otimista, segundo as declarações de Guido Mantega e de seu secretário executivo Nelson Barbosa.

Pelo lado político, veremos o início de uma espécie de “segundo tempo”. Como muito bem indaga o Nassif, estaria Dilma preparada para viver num ambiente político com a economia estagnada? Como essas quedas de ministros em série, até então restritas à ministros não escolhidos pessoalmente pela presidenta (todos eles vieram de Lula ou foram indicações de bancada), será absorvida por uma população insatisfeita com a economia do país? O desfecho do caso do ministro Pimentel, o primeiro da cota pessoal de Dilma a enfrentar uma onda de denúncias, e os rumos da economia, indicarão como será esse segundo tempo.

Uma aposta minha: novos estímulos econômicos virão e os juros terão sua queda acelerada na próxima reunião do COPOM, talvez em 0,75% ou até mesmo em 1%. Até porque o PIB de 2012 será usado para se definir o salário mínimo de 2014, ano de nova eleição presidencial. A conferir.

***

Atualização em 01/06/2012:

Quase um ano após a redução de 0,5% da Selic no final de agosto de 2011, o BC acaba de baixar, pela 7a. vez consecutiva, a taxa básica de juros, reduzindo-a para 8,5% ao ano. Enfim, o BC estava certo e o mundo não acabou, como ilustra o Nassif neste ótimo post.

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