Oportunidade única

Desde a época da queda de Collor ouço falar da necessidade de se criar, não uma CPI para pegar apenas corruptos, mas de uma para pegar também os corruptores. Em resumo: uma CPI das empreiteiras, pois não é de hoje que ouvimos falar do poder que essas empresas tem de corromper. E agora, passados mais de 20 anos da CPI do PC, temos instalada uma CPMI (mista, envolvendo deputados e senadores) no Congresso Nacional que pode muito bem ser essa CPI tão desejada pela sociedade.

Foi interessante acompanhar o nascimento desta CPMI. Muitos boatos e ameaças para cima do governo, com vários veículos de comunicação (principalmente os da velha-grande mídia) alardeando que, pelo seu conteúdo explosivo, sobraria para todo mundo, inclusive derrubando gente do governo e causando sérias instabilidades para a tal “governabilidade”. Ou seja, um jogo pesado para amedrontar os parlamentares, e limitar o poder de fogo de uma eventual CPI.

Pois bem. Mesmo com as pressões de seus adversários, a CPMI nasceu. Agora, os mesmos tentam desqualificá-las. E o supra-sumo deste fato foi a (mais uma) inacreditável capa da Veja. Como se uma CPI que investiga as relações, no mínimo promíscuas, entre um bicheiro, jornalistas, políticos e empresas pudesse influenciar o voto, praticamente concluído a essa altura do campeonato, dos ministros do Supremo (o Bob Fernandes, do Terra Magazine, escreveu um ótimo texto sobre isso). Surreal.

O truque, novamente, não deu certo. Com isso, a tentativa #3 de se bombardear essa CPMI passou a ser a seguinte tese: o foco da CPMI não são as COMPROVADAS ligações de  um esquema criminoso com jornalistas, políticos e empresários, e sim a ligação de UMA empresa (Delta) com o governo federal. (importante: não estou defendendo ninguém, apenas gostaria que esta CPMI investigue TUDO). Como se Demóstenes, Cachoeira, Leréia, Dadá e outros personagens não existissem, e sim Cavendish e Dilma (o Leandro Fortes fala sobre isso aqui). Outra vez, surreal.

Percebendo que, pelo menos no que se refere as relações entre esse esquema criminoso e a imprensa, o cerco pode se fechar (principalmente para a revista Veja e seu repórter Policarpo Júnior, pego em mais de 200 ligações com o bicheiro Cachoeira), surgiu a suspeita, levantada pelo jornal eletrônico Brasil247, de que pode existir um acordão entre a velha-grande mídia e a base aliada do governo que controla a CPMI. Do tipo: a imprensa (leia-se Globo e grupos Folha e Abril) pega leve com o governo e o governo pega leve com a imprensa na CPMI, não convocando Roberto Civita, presidente do grupo Abril e editor-chefe da Veja e o jornalista Policarpo Jr. E quem trabalharia por esse acordão, sendo um elo entre a imprensa e os integrantes da CPMI seria (que decepção!) o deputado Miro Teixeira. Mas existiria mesmo esse acordão? Eis alguns fatos que ajudam a esclarecer essa pergunta:

  • De lá pra cá, pode-se constatar que a velha-grande mídia deslocou o foco dos seus holofotes da Delta e seus contratos com o governo federal para o senador Demóstenes Torres (DEM) e o governador de Goiás Marconi Perillo (PSDB), “esquecendo” um pouco o governador do DF, o neopetista Agnelo Queiroz.
  • A defesa que o jornalista Merval Pereira (O Globo) fez de Policarpo Jr. (Abril). Tem um ótimo comentário sobre esse fato aqui.
  • Entre os quase 170 requerimentos apresentados na abertura da CPMI, NENHUM pede a convocação do editor e de jornalistas da Veja.

Ou seja, existem boas evidências que pode existir, sim, esse acordão. Vai dar certo? Só o tempo (e os fatos que surgirão daqui pra frente) dirá.

Como esta CPMI está apenas no seu começo, resta-nos esperar (e pressionar os congressistas) para que ela apure com clareza as denúncias, puna eventuais criminosos e feche mais esse ralo por onde esvai dinheiro público.

Além disso, que esta CPMI possa esclarecer também as relações, no mínimo promíscuas, entre a revista Veja e esse esquema criminoso desbaratado pela Polícia Federal. No Reino Unido, um escândalo parecido aconteceu, causando o fechamento do jornal News of the World. O parlamento britânico, através de uma CPI, convocou o magnata das comunicações Rupert Murdoch para explicações. Como ele não convenceu os parlamentares, o parlamento considerou Murdoch inapto a dirigir um conglomerado de mídia, por ter feito vista grossa em relação às escutas ilegais.

É interessante notar que lá, no Reino Unido, NINGUÉM alardeou que a liberdade de imprensa corria riscos. Por outro lado, aqui no Brasil, populam por aí textos e discursos contra esta CPMI, dizendo que se ela ousar e resolver convocar jornalistas, não teríamos mais liberdade de imprensa no país. Seria o caos! A implantação definitiva do fascismo no Brasil. Mais uma vez, surreal. Mas apenas a título de curiosidade: essa diferença de postura teria alguma relação entre a nossa (ainda) imatura República com a avançada – nesse e em outros aspectos – sociedade britânica?

Contra esses discursos estapafúrdios, o Brasil247 e o jornalista e blogueiro Luis Carlos Azenha escreveram ótimos textos. Além disso, o presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia (PT-RS) escreveu uma nota questionando a Veja: por que a Veja é contra a CPMI do Cachoeira? O Azenha tem outro texto muito interessante sobre o que está em jogo nesta CPMI e suas implicações na velha-grande mídia.

Enfim, dá pra perceber que, ao contrário das outras, ESTA CPI não está animando muito a imprensa não. Ainda mais ela, que adora um escândalo, qualquer escândalo (o caso da taioca, dentre outros). Seja para vender mais jornais e ter maior audiência, seja para derrubar políticos que são contrários a seus interesses. O Observatório da Imprensa também percebeu isso. Mas como disse o Bob Fernandes, a guerra começou, com novos e velhos escândalos e personagens. Ou seja, é praticamente mais do mesmo. Mas para que dessa vez as coisas sejam diferentes, estou com o Leonardo Attuch e o próprio Bob Fernandes: solta a língua e conta tudo, Cachoeira! Deve ter muito político, não apenas em Brasília, assim:

Charge CPMI do Cachoeira

Resta saber se seguiremos o exemplo britânico, aproveitando esta oportunidade única que está diante desta CPMI, para darmos um passo adiante e consolidar a República no Brasil ou se jogaremos essa oportunidade no lixo da história. Com a palavra, o Congresso Nacional. E nós, cidadãos.

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2 respostas para Oportunidade única

  1. Luiz Henrique Moreira disse:

    Muito bom. Clareza no desenvolvimento do assunto.
    Abraços.
    LH.

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