Desejo e Prazer. Felicidade e Sofrimento

(Texto de Fernando Sepe, originalmente publicado em seu blog. Para acessá-lo diretamente, clique aqui)

Talvez, a primeira ideia que deveríamos abandonar seja a “hipótese repressiva”, como bem lembrou Michel Foucault em sua História da sexualidade, vol.1. Ela já não nos dá bons parâmetros para uma crítica da sociedade. Afinal, o que é a nossa sociedade se não uma sociedade do desejo? E o capitalismo, há para ele uma definição mais sucinta do que “economia libidinal”? Creio que o homem contemporâneo não seja reprimido, mas sim, absolutamente controlado pelo desejo. Desejos na maioria das vezes supérfluos, artificiais, criados para fazer a economia girar. Às vezes fico pensando que, por mais incrível que pareça, Reich está ultrapassado e as velhas tradições de sabedoria são mais modernas do que nunca. Pois, elas entendiam que os desejos são insaciáveis e o homem que não os têm sobre seu comando padece. Padece porque perde sua liberdade de escolha, de agir, de pensar e de se comportar. Nada há de errado nos desejos, desde que eles não sejam mestres. Perceba, esse papo não parece conservador e reacionário? Pois é. Mas, parece-me que hoje em dia se você quiser gozar de alguma liberdade é bom moderar o querer. Na sociedade do consumo, onde o ter está em antítese com o ser, onde o valor é dado pelo ter, o desejo desenfreado é um problema. E isso tem muito pouco a ver com sexo.

Já que tocamos nesse assunto, o prazer se tornou uma técnica, não uma arte. Tem horário, dia e lugar para acontecer. Homens e mulheres hoje em dia não gozam, mas sim, liberam tensões. O prazer nunca foi tão controlado e contado às migalhas. E olha que falo do prazer físico, do sexo, da amizade, das conversas jogadas fora. Pois outros tipos de prazeres, como o intelectual e o espiritual, bem, esses são uma classe em extinção. Demandam demasiado tempo livre, demandam um certo aprendizado que não é valorizado, enfim, são experiências que talvez um dia se tornem relíquias de um passado esquecido da humanidade.

Eis um assunto que acho fascinante: o prazer demanda um grande cuidado de si e tempo livre, ocioso. Infelizmente, o trabalho não permite. Cuidar de si mesmo é difícil, demanda uma força gigantesca, força essa sugada pelo trabalho cotidiano. E então, quando o final de semana chega, todos procuram por diversão, distração, entretenimento, prazer contado às migalhas. Não há força, concentração, disposição mental, atitude e conhecimento que privilegie, fortifique, intensifique e faça florescer o prazer. O homem contemporâneo é cansado e inculto. Seus sentidos dormem e sua cabeça e corpo estão programados apenas para a técnica de seu trabalho e para mais uma ou duas atividades. Ele esqueceu a música, a arte e a poesia, os jogos e as brincadeiras, a força mental, a vida contemplativa, os desafios do corpo, as belezas e fragrâncias dos sentidos. Ele trabalha muito e, por isso, ele tem, mas não é. Ele é ansioso e, por isso, não consegue ficar parado nem por uma hora sem nada a fazer. Não é à toa que em média uma relação sexual dure de sete a treze minutos (segundo pesquisa realizada pelo Journal of sexual medicine).

Mas, surpreendentemente, vivemos em um tempo de grande felicidade. Você nunca viu nas redes sociais? Ora, vamos lá, use seu Iphone de última geração e poste uma foto com um filtro maneiro e mostre como você é cool. A ciência é nossa religião e a tecnologia nos salvará! Nas redes sociais todos são felizes e fazem questão de mostrar isso. Mas na vida também. A equação é muito simples: felicidade virou a marca do sucesso. E todos nós sabemos como sucesso é importante. Sucesso na carreira, sucesso nos relacionamentos, sucesso, sucesso… Que preguiça! Opa, desculpem, não há tempo para preguiça. O sucesso é como Deus, ajuda quem cedo madruga. E você sabe quais são as consequências do insucesso, não?

Sim, o sofrimento, a exclusão, a solidão, o fracasso. Todas essas figuras satânicas que devem ser deixadas de lado, ignoradas e trancadas a sete chaves. Hoje em dia ninguém fracassa, apenas “se muda os planos”. Solidão? Nem pensar, não ter vida social e muitos amigos é sintoma de insucesso. E sofrimento então? Coisa de fraco. Mesmo que se gaste fortunas no psicólogo, ou com drogas, ou com remédios psiquiátricos (que são piores que drogas) ninguém sofre. Na verdade, tem-se vergonha de sofrer. Ora, mas uma vida sem sofrimento, sem lágrimas, sem dúvida é uma vida que não vale a pena ser vivida. Lembrei-me de uma bela metáfora freudiana. Freud enfatizava sempre como o sofrimento é fundamental para a constituição do indivíduo. Ele partia não das análises do dito comportamento normal, mas sim, do patológico, daquele comportamento marcado pelo fracasso da razão. Daí sua bela metáfora do cristal: “se atiramos ao chão um cristal, ele se parte, mas não arbitrariamente. Ele se parte, segundo suas linhas de clivagem, em pedaços cujos limites, embora fossem invisíveis, estavam determinados pela estrutura do cristal”. É a partir da quebra, do surto, que se pode entender a estrutura que define o comportamento dito “normal”. O sofrimento é necessário para a vida, assim como a loucura para a razão.

Desejo e prazer. Felicidade e sofrimento. Quatro temas que mereceriam o mínimo de nossa atenção, pois eles parecem ditar muito da qualidade da vida que vivemos. Tempos modernos, tempos engraçados. Talvez eu esteja sendo muito crítico. Será? Você pensa isso porque não conhece a classe média de São Paulo. Ou talvez, como eu, esteja tão embrenhada nela que muitas vezes é difícil recuar e criticar. Mas o esforço é preciso. Eu diria mesmo, necessário…

by Fernando Sepe

Anúncios
Esse post foi publicado em Filosofia e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s