O segundo tempo dos juros

Já falei sobre juros antes. Falei sobre o verdadeiro absurdo existente no Brasil e como esse tema é importante para o país. E terminei o texto com algumas perguntas, que seriam respondidas com o tempo.

Pois bem. Em relação ao front político, Dilma não enfrenta as agruras que traz uma economia estagnada. Pelo andar da carruagem, o crescimento desse ano deve ser da ordem de 3,5%. Se não é nenhum espetáculo, está longe de ser catastrófico. Além disso, a “faxina” no ministério acabou, justamente quando as denúncias chegaram ao primeiro ministro da cota pessoal de Dilma, Fernando Pimentel. Ou seja, a tal “faxina” foi ótima para a presidenta que, ao usar a velha-grande mídia, pôde trocar ministros que vieram do governo anterior por outros com quem ela tem mais afinidades, como o ministro do Trabalho, Brizola Neto.

Após um primeiro ano de mandato em que Dilma deu um “freio de arrumação” na sua base política (inclusive tirando um partido da base aliada, o PR), ficou nítido, após o histórico discurso de 1o. de maio, que ela procura agora dar uma marca para o seu mandato. A tão propalada gestão ou o “fazer mais com menos, melhorando a qualidade dos gastos” é importantíssima, mas não tem apelo popular suficiente para se ganhar uma eleição presidencial. E nada mais emblemático para isso do que a queda dos juros, com uma presidente ao lado do povo, com coragem para enfrentar a “gula insaciável” dos banqueiros. Noves fora o marketing da frase, vamos combinar que se trata de um slogan e tanto para 2014…

Como a economia cresce devagar e a inflação não disparou, segundo algumas previsões catastróficas dos terroristas de mercado, o BC teve (e ainda tem) margem para reduzir os juros desde agosto de 2011, inclusive com reduções mais acentuadas, de 0,75% nas duas últimas reuniões. Além disso, com o entrave da poupança para quedas maiores dos juros removido, o BC pode ir além da mínima histórica para a Selic e fazer com que a taxa chegue a 8% ao ano, ou até menos.

Nesse cenário projetado, a taxa de juros real (Selic menos a inflação) pode atingir patamares inimagináveis até pouco tempo atrás, como algo em torno de 2,5 a 3% ao ano. Uma marca que nenhum governante conseguiu realizar até hoje. E que é um baita capital político.

Desta forma, da mesma maneira que a estabilização monetária foi o grande legado de FHC, a inclusão social, com mais de 30 milhões de pessoas saindo da miséria e outras 40 milhões ingressando na famosa classe C, se tornou o grande legado de Lula. E agora, Dilma procura o seu. E ele pode muito bem ser a combinação de juros civilizados e de primeiro mundo (preocupação econômica) com a erradicação da miséria (preocupação social). Em suma, uma líder preocupada com as grandes questões nacionais e enfrentado-as.

Essas observações também foram notadas pelos jornalistas Ricardo Kotscho e Luís Nassif, em ótimos textos em seus respectivos blogs.

Ou seja, milhões de brasileiros tinham o seu poder de compra corroído pela inflação. Estabiliza-se a economia. Em seguida, junta-se a esses brasileiros outras dezenas de milhões de brasileiros no maravilhoso mundo do consumo. E agora, com grande parte desses milhões de brasileiros endividados – principalmente da nova classe média – acontece o que eles estavam precisando para saldarem suas dívidas, continuarem consumindo e fazer a economia crescer: juros baixos.

Se Dilma vai ganhar esta batalha, pavimentando assim sua reeleição, só o tempo dirá.

***

Atualização em 01/06/2012:

Quase um ano após a redução de 0,5% da Selic no final de agosto de 2011, o BC acaba de baixar, pela 7a. vez consecutiva, a taxa básica de juros, reduzindo-a para 8,5% ao ano. Enfim, o BC estava certo e o mundo não acabou, como ilustra o Nassif neste ótimo post.

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