Vaca Profana e uma nova fase musical

Confesso que não conhecia, pelo menos minimamente, a música “Vaca Profana”, do Caetano Veloso. Se a ouvi umas 3 ou 4 vezes, foi muito. E sem prestar muita (honestamente, sem prestar nenhuma) atenção na letra…

E por que prestei atenção desta vez? Talvez por atualmente querer explorar e conhecer outros tipos de músicas além das quais estava acostumado a escutar ultimamente. Nada complicado, já que sou bem eclético em termos musicais. O curioso é que essa mudança se deu por conta de dois fatos recentes, totalmente desconexos entre si, mas que, dentro de um determinado contexto e reunidos num estado de espírito propício, resultou nessa busca por uma nova fase musical. Outra sincronicidade?

O primeiro, uma recente caminhada às Torres de Bonsucesso, em Terê, na qual tive o privilégio e o prazer de voltar a caminhar, após mais 4 anos (e em grande estilo, diga-se de passagem, com direito a uma nova conquista na Torre Norte), com meu grande amigo Osvaldo, mais conhecido como Santa Cruz. Quem já caminhou ou escalou com ele sabe de seu costume de cantarolar durante as excursões. E praticamente TODAS as músicas (muitas do Milton Nascimento) que ele cantou eu simplesmente não conhecia…

(Vale mencionar também que, nesta viagem de ida à Terê, pude escutar, além de lindas músicas andinas, como algumas da Violeta Parra, também outras da MPB, como do 14 Bis e do … Milton Nascimento!, incluindo a sua fantástica versão de “Volver a los 17″ da Violeta, em parceria com a Mercedes Sosa e sua inigualável voz).

O segundo fato foi escutar na rádio, alguns dias atrás, “Rapte-me, camaleoa“, do Caetano. Na hora pensei comigo: “caramba, bacana essa nova música do Caetano…”. Sentiram o drama? Só depois descobri, após a clássica jogada de palavras-chave no Google (as poucas que conseguia lembrar), que essa música é do álbum “Outras Palavras“, de 1981…

Passadas essas duas situações, percebi que minha fase de ignorante musical estava perto do fim. Faltava apenas comprar algumas dessas músicas pelo LegalSounds e começar a deliciar-me com elas…

A seguir, a letra de “Vaca Profana”. Logo depois, algumas possíveis interpretações e o meu pitaco.

Vaca Profana

Composição: Caetano Veloso

Respeito muito minhas lágrimas
Mas ainda mais minha risada
Inscrevo, assim, minhas palavras
Na voz de uma mulher sagrada
Vaca profana, põe teus cornos
Pra fora e acima da manada
Vaca profana, põe teus cornos
Pra fora e acima da man…
Ê, ê, ê, ê, ê,
Dona das divinas tetas
Derrama o leite bom na minha cara
E o leite mau na cara dos caretas
Segue a “movida Madrileña”
Também te mata Barcelona
Napoli, Pino, Pi, Paus, Punks
Picassos movem-se por Londres
Bahia, onipresentemente
Rio e belíssimo horizonte
Bahia, onipresentemente
Rio e belíssimo horiz…
Ê, ê, ê, ê, ê,
Vaca de divinas tetas
La leche buena toda en mi garganta
La mala leche para los “puretas”
Quero que pinte um amor Bethânia
Stevie Wonder, andaluz
Como o que tive em Tel Aviv
Perto do mar, longe da cruz
Mas em composição cubista
Meu mundo Thelonius Monk`s blues
Mas em composição cubista
Meu mundo Thelonius Monk`s…
Ê, ê, ê, ê, ê,
Vaca das divinas tetas
Teu bom só para o oco, minha falta
E o resto inunde as almas dos caretas
Sou tímido e espalhafatoso
Torre traçada por Gaudi
São Paulo é como o mundo todo
No mundo, um grande amor perdi
Caretas de Paris e New York
Sem mágoas, estamos aí
Caretas de Paris e New York
Sem mágoas estamos a…
Ê, ê, ê, ê, ê,
Dona das divinas tetas
Quero teu leite todo em minha alma
Nada de leite mau para os caretas
Mas eu também sei ser careta
De perto, ninguém é normal
Às vezes, segue em linha reta
A vida, que é “meu bem, meu mal”
No mais, as “ramblas” do planeta
“Orchata de chufa, si us plau”
No mais, as “ramblas” do planeta
“Orchta de chufa, si us…
Ê, ê, ê, ê, ê,
Deusa de assombrosas tetas
Gotas de leite bom na minha cara
Chuva do mesmo bom sobre os caretas…

A letra desta música é intrigante e seu significado não é simples de se captar de início. Curioso, comecei uma pesquisa no “pai dos burros” e o primeiro resultado foi esse. Simplesmente bizarro! O cara deve ser MUITO crente (nada contra) e também deve estar lendo MUITO a Bíblia (nada contra). Mas tudo demais faz mal, né? Acaba enviesando nossa visão das coisas. Agora, levar o significado desta música para o lado evangélico (nada contra) já é surrealismo demais para mim…

Mas desconfiado de que o verdadeiro significado não era aquele, e sim uma mudança no comportamento, na visão e compreensão de mundo por parte do narrador, principalmente ao se acompanhar a evolução do refrão ao longo da música, continuei minha pesquisa. E cheguei nessas duas interpretações bem bacanas a respeito do significado da letra. Essa aqui, do blog “Múltiplas Realidades” e essa, do “Tópicos Para Uma Semana Utópica”.

Essas sim, batem com o meu sentimento a respeito da letra e, acredito, com o verdadeiro significado dela. Significado esse de crescimento, evolução, transcendência, que, como disse, é refletido na evolução dos refrões.

Se no início o sagrado é profano, com a vaca pondo “seus cornos pra fora e acima da manada“, ou seja, vivendo-se além dos limites impostos pelas pessoas comuns, da manada, com o narrador pedindo para a Vaca Profana, a “Dona das divinas tetas”, derramar “o leite bom na minha cara e o leite mau na cara dos caretas“, no final, completamente modificado ao longo de sua vida, amadurecido pela sua vivência e jornadas através das “ramblas do planeta”, pelo cosmopolismo de São Paulo, Paris e New York, deixa de implicar com os caretas do mundo – “sem mágoas, estamos aí” – e se identifica como um. Ele, que antes combatia a hipocrisia, a normalidade e o senso comum dos caretas, julgando-os como errados através da contracultura da “movida Madrileña“, da excentricidade de “Thelonius Monke seus “blues” originais, da genialidade de Picasso e de sua arte cubista, que tanta influência exerceu na criação da “torre traçada por Gaudi“, agora reconhece que “também sabe ser careta” e que “de perto, ninguém é normal” (foda este trecho!). Pois, além da intimidade exterior, através da qual podemos ver os defeitos, manias, medos e taras dos outros, podemos, através da intimidade interior e do autoconhecimento, largar nossa máscara e reconhecer nossas falhas e imperfeições.

Ele enxerga sua sombra, cresce, percebe que também erra, deixando assim de julgar as pessoas. Sente compaixão, por ele e pelos outros. Aí relaxa e pede uma Orchata de chufa, si us plau”. E, por fim, pede também que a “Deusa de assombrosas tetas” não apenas derrame “gotas de leite bom na minha cara“, mas também e principalmente uma “chuva do mesmo bom sobre os caretas…”

Simplesmente genial…

Anúncios
Esse post foi publicado em Cotidiano, Cultura e marcado , , , , . Guardar link permanente.

16 respostas para Vaca Profana e uma nova fase musical

  1. binhavidal disse:

    Gostei muito do post, adoro prestar atenção nas letras das músicas e lê-las como verdadeiros poemas que são… Depois comentarei com mais calma tudo, no momento estou sem tempo. Achei muito engraçado o comentário sobre a “nova” música do Caetano! rsrsrsrs

  2. binhavidal disse:

    Agora com mais tempo! Minha intimidade com Caetano, Gil, Chico, Djavan e outros poetas da MPB vem de longe, da minha infância, quando meu pai passava os finais de semana ouvindo LPs em casa. Lembro de ouvir essa música quando criança e achar esquisita. Vaca, teta, leite… me parecia uma temática meio bizarra para uma música. Depois dessa primeira impressão ruim, nunca mais tive curiosidade de prestar atenção na letra, embora tenha escutado a música várias vezes. Hoje tive a chance de fazer isso! Li as interpretações nos outros blogs e achei tudo muito legal. E adorei as referências à Barcelona: “ramblas”, a frase em catalão e o trecho “sou tímido e espalhafatoso, torre traçada por Gaudi”. Muito bom!
    Eu já me deparei com interpretações evangélicas também (nada contra os evangélicos, tenho amigas maravilhosas que são), quando estava pesquisando na internet sobre a música “A Maçã” do Raul. Enfim, li cada coisa… rs. Sendo música do Raul então, aí que demonizam mesmo! Bom, não sei se você chegou a ler o post no meu blog, mas fiz uma interpretação de duas músicas do Raul que para mim se complementam. Achei legal que meus amigos que leram depois falaram que nunca tinham parado para prestar atenção na letra ou nunca tinham pensado na letra daquele jeito.
    Adorei ter tido a chance de ver com outros olhos a música que eu achava bizarra na infância! rs E a música é muito boa, como tantas e tantas outras do Caetano.
    Beijos.

    • cadulessa disse:

      Debs, já eu não tive muito contado com esses poetas da MPB. Meu pai, apesar de também escutar LPs durante os finais de semana, preferia escutar Roberto Carlos! rs! No máximo, algumas músicas orquestradas do Ray Conniff e outras do gênero. Ele nunca foi muito fã de Caetano, Gil, Milton, Chico. Mas gosto é uma coisa muito pessoal, né?
      Sobre essa música, a achava bizarra até então. Mas não podia ser diferente, pois só prestando atenção na letra e buscando um significado, tentando interpretá-la, é que a mesma deixa de ser bizarra e passa a ter um baita significado!
      Sobre a sua interpretação de Raul, vou dar uma conferida lá no seu blog. Raul é outro que só conheço o basicão, além de nunca ter tido a oportunidade de interpretar algumas de suas músicas.
      Bjs!

  3. Nanda Botelho disse:

    Oi! Fui eu que escrevi a interpretação do Múltiplas Realidades. Adorei sua estória pra chegar na música e percebi que chegamos as mesmas conclusões da música! O que mais me emociona nela, é a compaixão instalada depois da caminhada, o desistir de ser contra alguém, o amor jorrado pra todos. Sou apaixonada por esta música. Nem sei se foi isso mesmo que Caetano quis dizer, mas foi isso que ela falou pra mim. Fico feliz de outras pessoas verem a mesma coisa que eu.

    Parece que você é um buscador, um saniasin, aquele que busca no trivial o transcendente. E com certeza já encontrou muita coisa pelo caminho.

    Obrigada pelo comentário lá no blog, e pela citação! Colocarei seu link no meu post. Bjs!!!

    • cadulessa disse:

      Oi Nanda, tudo bem?
      Obrigado por ter servido de inspiração para essa interpretação de “Vaca Profana”. Realmente, pensamos o mesmo sobre o significado dela. Várias coisas que escrevi foram baseadas no seu post, por isso me senti na obrigação de citar o seu post e te agradecer!
      A letra realmente é linda! Mas o significado dela é ainda mais…esse crescimento do narrador, que percebemos ao longo da música, é fantástico. E as frases que o Caetano usa para deixar esse amadurecimento são sensacionais! “De perto ninguém é normal” é de uma simplicidade genial! E a evolução, descrita nos refrões sucessivos é magistral. Isso sem contar as várias referências culturais mencionadas. Algumas ali nunca tinha ouvido falar, como, por exemplo, a “movida madrileña” e a “torre de Gaudi”. Simplesmente sensacional…
      Sobre mim, parece que você tem alguma razão…de uns tempos para cá me tornei um buscador sim. E esse é o grande motivo de ter criado esse blog. Apesar de ter escrito por aqui algumas coisas muito ligadas ao cotidiano, ao dia-a-dia “comum”, o meu grande objetivo com esse espaço é compartilhar textos mais “sutis”, que sirva de inspiração para as pessoas irem de encontro ao transcendente, como você disse. E sim, já encontrei bastante coisa interessante pelo caminho e, espero, escrever sobre elas por aqui. Talvez sejam úteis para alguém. E mesmo se esse alguém for apenas uma pessoa, já terá valido a pena.
      Bjs!!!

  4. Gapriuna disse:

    Genial o seu cuidado e despreendimento em ilustrar todas as expressões “desconhecidas” com links da própria internet para que o o leitor possa tirar suas próprias conclusões. Parabéns pelo post!

    • cadulessa disse:

      Obrigado!
      Acho os links importantes para poderem servir de referência e facilitar o entendimento da ideia principal do texto. Por isso, procuro sempre colocar links.
      Mas o lance é encontrar um equilíbrio, para não colocar demais nem de menos…rs.
      Abraços!

  5. Cara, também não me satisfiz com a interpretação ‘evangélica’ feita para a letra da musica Vaca Profana… Bisbilhotei várias e várias paginas até vir a encontrar esta. Estou satisfeita para já. Nada como a visão descontaminada, não é mesmo? Valeu, ficou nos meus ‘preferidos’.

    • cadulessa disse:

      O que eu não entendi, Júlia, é como esta interpretação “evangélica” é a uma das que aparece primeiro quando a gente joga no Google. Não tem pé nem cabeça a interpretação! Li e reli na época e pensei comigo: “não, tem alguma coisa errada aí! “:-)
      Nada contra os evangélicos. Cada um tem a religião (ou não) que melhor lhe dá sentido para a vida e para a realidade. Mas acho que religião demais “na veia” pode ser a razão para lermos textos como aquele…

  6. Joao Antonio Lopes Caetano disse:

    Fico feliz quando leio essas manifestações. Como foi citado: os poetas da MPB. É que vivemos uma fase tão triste e pobre da nossa música, que esta buscas se tornam um resgate importante.
    Vaca profrana é realmente um hino, a evolução e “confissão” do Caetano, as citações culturais, muito bem grifadas incentivam a pesquisa. Também acho muito legal as lembranças de Raul, Milton, 14 Bis. Puxa, obrigado a voces todos. Nem tudo está perdido. Vou seguir acompanhando.

    • cadulessa disse:

      Valeu, João.
      Também acho bacana esse “resgate”. Para mim, pessoalmente, está sendo uma grande “descoberta”. Além do mais, é uma incongruência grande o mundo inteiro louvar a música brasileira, tida como uma das melhores do mundo e, nós brasileiros, não a conhecermos. Estou fazendo a minha parte… 🙂

  7. Ro disse:

    Gostei muito da sua análise, inclusive, entendi assim desde a primeira vez que prestei atenção na letra. Além disso, imagino que essa coisa de leite bom e leite mau seja uma referência à teoria de Melanie Klein.
    Um abraço.

  8. Só uma contribuição. Essa versão de Gal Costa, na Manchete. http://www.youtube.com/watch?v=HoGsFL4l49A Sim, está ou não profana?

  9. Fernando X disse:

    A música é apenas uma homenagem a Gal Costa, “a vaca profana”, que deve derramar seu leite (o seu canto) sobre os não caretas e os caretas, ao redor do mundo. Caetano valoriza suas lágrimas e mais ainda o seu riso (sua vida) por isso escolheu Gal para cantar sua música e pede a ela para levantar os “seus cornos sobre a manada” e derramar seu leite.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s