Combatendo o racismo. Sim, ele existe e mora perto.

Semana passada comemorou-se o Dia da Consciência Negra e gostaria de escrever sobre isso, começando com um fato que presenciei a um tempo atrás e que mostra como o mal que levou a criação deste dia está mais próximo da gente do que imaginamos: o racismo.

“Como tem loirinha com negão por aí! Olha, não sou racista, mas acho que não tem nada a ver isso [a existência de casais multirraciais]” (de um familiar, numa mesa de festa)

Fiquei mudo quando escutei isso, de um tio, numa festa. E permaneci mudo, para não estragar a festa da criança. Mas, após o choque, me pus a refletir: será que já não tive, pelo menos uma vez, esse pensamento (leve que seja), apenas sem a coragem de externá-lo? Quantas vezes não olhei torto para o lado, com medo de ser assaltado, só porque a pessoa era negra? Acho que vale a pena esse tipo de reflexão, pois acredito que o racismo está tão entranhado em nosso inconsciente que mal o percebemos…

Sinceramente, fico incomodado quando olho ao redor percebo que TODOS os meus colegas de trabalho (uns 30) são brancos e que TODAS as pessoas responsáveis por varrer e tirar o lixo da minha sala são negras.

Para tentar amenizar esta discrepância, criou-se o sistema de cotas raciais, recentemente declarado constitucional pelo STF. Sempre achei que o melhor seria termos cotas sociais (as quais, segundo a realidade brasileira, beneficiariam, em sua maioria, os negros) ao invés de cotas raciais. Com as cotas sociais, ampliaríamos o foco desta questão, ou seja, não teríamos ações afirmativas (que, não custa lembrar, visam reduzir a GRITANTE desigualdade social nesse país) apenas entre os negros, mas entre toda a população de baixa renda. Ou seja, “elevaríamos” o nível do debate, evitando distinguir as pessoas pela cor. Talvez o ator Morgan Freeman concorde com esta visão:

Mas acho que temos um paradoxo aí. O problema existe (ou você é da turma do Ali Kamel, diretor de jornalismo da Globo, que chegou a escrever um livro negando que exista racismo no Brasil?), precisamos debater para enfrentá-lo mas não falaríamos sobre o tema? Acho que não tem como discordar do Freeman. O correto seria mesmo não pensarmos em termos raciais. Mas acho que ele está pensando lá na frente, num mundo mais utópico e livre de preconceitos, quando, espero, não será mais necessário falar sobre a cor da pele de ninguém, pois será irrelevante. O problema é que HOJE esse cenário não existe. Precisamos, sim, falar sobre cor de pele, de racismo, até para podermos trazer à tona esse problema que muitas vezes colocamos debaixo do tapete, e assim acabar com esse preconceito em nossa sociedade (ok, no mundo).

Então, voltando às cotas. Hoje, acredito que poderíamos ter sim cotas exclusivamente raciais (não faço ideia do percentual), a título de indenização, pelos sérios danos causados, ao longo de nossa história, aos negros deste país. Uma indenização temporária, diga-se. Para que possamos, no futuro, guiar nossos pensamentos e ações ignorando o critério raça. Ou seja, um futuro em que nós não precisássemos falar mais sobre cor da pele e que não precisássemos mais celebrar dia como esse, da Consciência Negra. Um futuro parecido com aquele desejado pelo Morgan Freeman.

***

Deixo aqui alguns ótimos textos que li e que me motivaram a escrever sobre racismo. Valem muito a leitura:

E, por fim, deixo este ótimo texto: uma proposta de exercício e de ética da escuta para quem não é vítima de racismo, por Idelber Avelar.

Nele, Idelber Avelar, criador do excelente, porém finado blog “O Biscoito Fino e A Massa“, nos convida a desenvolvermos uma ética da escuta, onde possamos nos concentrar em ouvir (apenas ouvir) as experiências e relatos de pessoas negras. É a experiência deles que importa neste exercício, pois afinal de contas, não é sobre você que devemos falar.

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7 respostas para Combatendo o racismo. Sim, ele existe e mora perto.

  1. binhavidal disse:

    Confesso que antipatizei com esse vídeo do Morgan Freeman. E coincidentemente ele foi postado no FB por amigos que tem uma ideologia mais de direita. Sei que as pessoas postaram com um pensamento do tipo: “negros, parem de se vitimizar porque não existe esse lance de raça, são vocês que ficam falando que são diferentes; e não sou eu quem está dizendo isso, é um negro”! Mas pra mim, parar de falar de racismo como se ele não existisse só piora a situação.
    No contexto que você colocou o vídeo ficou bem legal. O que ele fala se aplica a um futuro onde ninguém vai precisar falar de cor de pele simplesmente porque isso não vai ser uma questão. Só que isso ainda é mega utópico. Talvez pro ator seja fácil falar porque ele é uma exceção, é bem sucedido, tem dinheiro…
    O mesmo discurso pode ser usado com as mulheres, por exemplo. “Pra que um Dia Internacional da Mulher? Vamos parar de falar de feminismo! É um discurso ultrapassado, pois as mulheres já têm os mesmo direitos dos homens por lei”(e nem é assim em todos os países). Também gostaria de um mundo em que não fosse necessário nem ter que haver essa discussão, onde a “diferença” entre homens e mulheres se resumisse simplesmente às características físicas ligadas à sexo e reprodução. Mas vamos negar toda uma história de opressão às mulheres? Uma história que foi escrita por homens?
    Também não podemos negar toda uma história de opressão aos negros. O Morgan Freeman fala que “a história dos negros é a história da América”, mas esquece que a história foi escrita e contada por brancos.
    Vou dar uma lida nos links, assuntos de “minorias” muito me interessam. Achei interessante o conceito de ética da escuta.
    Acho que me empolguei! rs
    Beijos,
    Debs.

    • cadulessa disse:

      Também não gostei muito desse vídeo do Freeman. É muito bonito o que ele fala. É o que poderia ser considerado de IDEAL, mas ainda não chegamos nesse ponto. Uma analogia que faço é em relação à escravidão, ao voto universal, ao prazer feminino ou qualquer outro assunto que era objeto de discussões acaloradas no século XIX (ok, século XX também) e que hoje não fazem o menor sentido. Hoje falamos sobre escravidão? Sobre o voto universal? Contestamos o direito que a mulher tem ao prazer, usando sua sexualidade da maneira que lhe convém? Não, pois não faz sentido discutir sobre isso. A sociedade evoluiu e já incorporou esses valores.

      Agora, em relação ao racismo, ainda não evoluímos. Pelo menos não ao ponto de não precisarmos mais falar sobre isso. Precisamos falar sobre racismo SIM! E suspeito que aqueles que vivem falando por aí que “racismo não existe” ou que “não sou racista, tenho até amigos negros” sejam, lá no fundo (ou não tão no fundo assim), racistas. Só não querem admitir. E a psicologia tem um nome para isso: mecanismos de defesa.

      • binhavidal disse:

        Desviando um pouco do foco. Realmente já se reconhece que a escravidão é um absurdo, acho que ninguém discordaria disso, mas ainda é um tema a ser abordado sim visto que infelizmente ainda é uma realidade.
        Já em relação à sexualidade feminina tenho que discordar. Assim como os negros ainda são discriminados por gente de mente tacanha, as mulheres que usam seu direito de desfrutar da sua sexualidade como lhe convém também são vítimas de preconceito. O homem não é julgado socialmente por ter uma vida sexual ativa e agitada, mas a mulher ainda hoje vai ser chamada de vagabunda. A ideia de que praticar sexo desvaloriza a mullher ainda é uma realidade. Sim, o mundo ainda é muito machista!

      • cadulessa disse:

        Você tem razão, Debs. Se a escravidão e o voto universal não são mais objetos de discussão, o prazer feminino ainda é um tabu e um assunto a ser debatido, assim como o racismo. Vou alterar o texto… 🙂

  2. binhavidal disse:

    Não precisava modificar o seu texto. Mas obrigada por usar a ética da escuta! 🙂

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