O retorno de Marcos Valério e uma pergunta

Gosto de política, principalmente a autêntica, aquela que é necessária para que os seres humanos, tão diferentes entre si, possam conviver em harmonia em um mundo cada vez mais conturbado.

Pretendo escrever um texto com uma outra visão sobre ela, tentando sair do “mais do mesmo”. Está em gestação. Por isso, dei uma segurada na onda nesses últimos meses, até para não ser muito influenciado pelo julgamento do tal “mensalão” e pelo clima de “Fla x Flu” que contaminou totalmente o ambiente político em nosso país.

Achei que, após o clímax com o julgamento do “mensalão”, os ânimos estariam mais serenos. Me enganei. Eis que Marcos Valério ressurge, jogando merda no ventilador, com nossa velha imprensa repercutindo em alto e bom som. E é sobre ela, e não sobre Marcos Valério e o “mensalão” que eu gostaria de falar aqui. Sobre estes, apesar de algumas (justas, ao meu ver) contestações, o nosso Supremo Tribunal já falou. E condenou. Ponto final. Quem sou eu para contestar uma decisão do Supremo…

Bem, voltando a nossa velha imprensa. A pergunta que coloco aqui para reflexão, em relação as acusações de Valério, é a seguinte:

“Até quando será tolerado no Brasil que a mídia publique acusações graves sem nenhuma prova?”

Não fui eu quem fiz essa pergunta, originalmente. Mas sim o jornalista Paulo Nogueira, criador do excelente blog Diário do Centro do Mundo, neste texto aqui, que reproduzo, na íntegra, logo abaixo.

Vale a pena a leitura e a reflexão.

***

Sobre o retorno de Marcos Valério
(por Paulo Nogueira)

Até quando será tolerado no Brasil que a mídia publique acusações graves sem nenhuma prova?

E lá vem ele de novo, Marcos Valério.

Pobre leitor.

Mais uma vez, o que é apresentado – a título de “revelações” – é um blablablá conspiratório e repetitivo em que não existe uma única e escassa evidência.

Tudo se resume às palavras de Marcos Valério. Jornalisticamente, isso é suficiente para você publicar acusações graves?

Lula já não é apenas o maior corrupto da história da humanidade. Está também, de alguma forma, envolvido num assassinato. Chamemos Hercule Poirot.

Se você pode publicar acusações graves sem provas, a maior vítima é a sociedade. Não se trata de proteger alguém especificamente. Mas sim de oferecer proteção à sociedade como um todo.

Imagine, apenas por hipótese, que Marcos Valério, ou quem for, acusasse você, leitor. Sem provas. Numa sociedade avançada, você está defendido pela legislação. A palavra de Valério, ou de quem for, vale exatamente o que palavras valem, nada – a não ser que haja provas.

Já falei algumas vezes de um caso que demonstra isso brilhantemente. Paulo Francis acusou diretores da Petrobras de corrupção. Como as acusações – não “revelações” – foram feitas em solo americano, no programa Manhattan Connection, a Petrobras pôde processar Francis nos Estados Unidos.

No Brasil, o processo daria em nada, evidentemente. Mas nos Estados Unidos a justiça pediu a Francis provas. Ele tinha apenas palavras. Não era suficiente. Francis teria morrido do pavor de ser condenado a pagar uma indenização que o quebraria financeira e moralmente.

Os amigos de Francis ficaram com raiva da Petrobras. Mas evidentemente Francis foi vítima de si mesmo e de seu jornalismo inconsequente.

Por que nos Estados Unidos você tem que apresentar provas quando faz acusações graves, e no Brasil bastam palavras?

Por uma razão simples: a justiça brasileira é atrasada e facilmente influenciável pela mídia. Se Francis fosse processado no Brasil, haveria uma série interminável de artigos dizendo que a liberdade de imprensa estava em jogo e outras pataquadas do gênero.

Nos Estados Unidos, simplesmente pediram provas a Paulo Francis.

O que existe hoje no Brasil é um sistema que incentiva a leviandade, o sensacionalismo e a tendenciosidade na divulgação e no uso de ‘informações’.

A vîtima maior é a sociedade, que se desinforma e pode ser facilmente manipulada.

Um episódio recente conta muito: foi amplamente noticiado que teriam sido interceptadas 122 ligações ‘comprometedoras’ entre Lula e Rose. No calor, o jornalista Ricardo Setti publicou em seu blog na Veja até uma fotomontagem em que Lula aparecia festivamente entre Rose e Mariza. (Depois, apanhado em erro, pediu triunfalmente desculpas.)

Bem, as tais 122 ligações foram cabalmente desmentidas. A procuradora Suzana Fairbanks afirmou a jornalistas:”Conversa dela [Rose]com o Lula não existe. Nem conversa, nem áudio e nem e-mail. Não sei de onde saiu isso. Vocês podem virar de ponta cabeça o inquérito”.

Tudo bem publicar, antes, as ’122 ligações’ sem evidências? Faça isso nos Estados Unidos, e você saberá, na prática, o tormento pelo qual passou Francis.

Uma justiça mais moderna forçaria, no Brasil, a imprensa a ser mais responsável na publicação de escândalos atrás dos quais muitas vezes a razão primária é a necessidade de vender mais e repercutir mais.

Provas são fundamentais em acusações. Quando isso estiver consolidado na rotina do jornalismo e da justiça brasileira, a sociedade estará mais bem defendida do que está hoje.


Paulo Nogueira é jornalista e está vivendo em Londres. Foi editor assistente da Veja, editor da Veja São Paulo, diretor de redação da Exame, diretor superintendente de uma unidade de negócios da Editora Abril e diretor editorial da Editora Globo.

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