A praia de Nando e a meditação

Neste capítulo, Nando busca refúgio numa pequena casa no litoral após ser preso e torturado pelos agentes da ditadura. Lá, ele inicia a sua busca pessoal para seus dramas existenciais. Ele questiona o mundo exterior, provavelmente desencantado pelo período de profunda crise pelo qual passava o país na época, e se interioriza, buscando dentro de si a melhor maneira de se viver. Essa nova maneira de Nando enxergar o mundo está nitidamente exposta nesse trecho:

– Eu acho a tua disposição de lutar a qualquer preço profundamente louvável – disse Nando – mas no momento temos maiores chances de fazer apenas o mais difícil, que é mudar a vida em vez de mudar o mundo.
– Não entendi disse Jorge.
– Entendeu sim, disse Nando. – Todo homem tem uma vida no mundo que pode ser histórica se ele quiser: altera o mundo, as condições do mundo, adapta o mundo a suas idéias. E tem a vida-vida, vida privada de todos os homens. Em relação ao mundo ela é um pouco como a vida das plantas, feita de água, de sol, de ar. E de amor principalmente, no caso dos homens. Amor de bicho, quero dizer, amor de mulher. Eu estou concentrado nesta vida, que tem pouca ligação com a outra.
– Se entendo certo – disse Djamil – Nando não quer que o mundo fique como está mas quer alterá-lo de forma diversa, mais lenta. Talvez no fim mais permanente.

Fica claro para o leitor que Nando busca mudar a si mesmo primeiro, para depois tentar mudar o mundo. É uma perspectiva pela qual nutro grande simpatia…

Mais adiante, outro trecho que expõe este “olhar para dentro”:

– Eu ouvi o que você disse a Jorge outro dia e não quero ficar te chateando. Mas você acha que falhamos da primeira vez porque esquecemos de fazer antes a agitação dentro de nós, os comícios interiores, as ligas de grupos de nós próprios contra nós mesmos. Não é isto? Só depois de levarmos ao paredão alguns cadáveres nossos e estabelecermos o triunfo absoluto da revolução com predomínio da idéia de nosso incontestável ser atual estaremos aptos a atear o fogo geral.
– Sim, mas não esqueça, Djamil, que uma vez que nos descobrirmos podemos exteriorizar uma revolução diferente daquela que propúnhamos quando na realidade ainda propúnhamos nós mesmos a nós próprios. Isso é que eu gostaria de ter feito seu amigo Jorge compreender. As segundas vindas passam sempre despercebidas porque o deus que volta, volta diferente. Os mansos voltam violentos, os coléricos voltam conciliatórios.
– Sim – disse Djamil compreendendo mas ainda não aceitando. – Que sofrimentos precisamos suportar para chegar à conclusão sobre nós mesmos?
Andar descalço na beira do mar é muito bom – disse Nando – principalmente quando não há seixos.

Simplesmente genial…

(Na hora me lembrei de um outro Nando, o Reis, que em “A Letra A” já dizia que “quando a gente fica em frente ao mar, a gente se sente melhor”…)

Resumindo, Nando não indica nenhuma mortificação ou sofrimento para se alcançar um estágio de possível iluminação interior que gere um autoconhecimento genuíno. Indica um outro método, mais leve e poderoso: a meditação. Não aquela meditação estereotipada, como esta. Mas aquela autêntica, verdadeira; aquela através da qual conseguimos olhar para dentro de nós mesmos com honestidade e compaixão. Seja sentado numa almofada em padmasana ou siddhasana,  seja deitado antes de dormir. Ou, como prefere Nando, caminhando na beira do mar…

 

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